quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Pedofilia: Cordeiro ou Lobo?

 
O objetivo deste trabalho é compreender os aspectos subjetivos do indivíduo maior legalmente a cometer pedofilia, na qual além de desrespeitar a legislação nacional, desrespeita a criança e o adolescente enquanto seres humanos e cidadãos.

Justifica-se pelo fato de que à Psicologia e/ou aos demais profissionais de áreas a fins, a compreender tais atos como desvios sexuais ou parafilias, o que em absoluto significa doença. Esta se instala abruptamente na vida do indivíduo e se relaciona diretamente às alterações orgânicas e/ou neuronais. Para Ferrari (2004), o desvio se caracteriza como um conjunto de comportamentos não convencionais, manifestando-se paralelamente ao desenvolvimento da sexualidade e podendo acompanhá-lo durante a vida toda.

Se de acordo com o autor, o pedófilo possui desejos e perturbações sexuais e interpessoais, o profissional de Psicologia deve conceber a pedofilia como uma prática criminosa, sem haver contestação e/ou atenuantes para os agressores. Com isto, sua postura ética deve seguir não ao código profissional em si (com referência ao sigilo), mas aos princípios estabelecidos pela Declaração Universal dos Direi
tos Humanos, que são refletidos no ECA.



Assim, psicólogos e profissionais de áreas complementares, extrapolando o âmbito forense, devem estar atentos às possíveis violações dos Direitos da Criança e do Adolescente, intervindo e prevenindo toda e qualquer possibilidade de desrespeito legal e civil.

Embora respeitando as determinações legais de crime, existente nesta prática, o que se pretende ter em foco é compreender as possíveis angústias e desejos do pedófilo e não meramente recriminá-lo ou julgá-lo. Muito se fala em pedofilia, tomando a vítima como centro das atenções, deixando de lado o pedófilo em si.


Considerações sobre violência

Toda e qualquer forma de tentar e exigir com que um outro indivíduo/grupo faça aquilo que não lhe é de sua própria vontade e iniciativa, pode ser considerado como violência. No entanto, é imprescindível que estas formas contenham o uso da força física ou autoritária, psicológica, verbal e sexual. Além disso, o agressor não considera o outro como sujeito, destinando-lhe um único lugar: o de objeto para satisfação de alguma necessidade, não considerando as próprias necessidades da vítima. (Ricotta, 1999).

Ricotta (1999) aponta que na violência física, além dos danos físicos propriamente, podem gerar conseqüências psicológicas futuras na vítima. Já na violência emocional/psicológica, os danos estão implícitos na subjetividade do sujeito, gerando seqüelas na conduta de comportamentos sociais e consigo mesmo, relações em geral, além de manifestações somáticas.

Os maus tratos afetivos na infância, provavelmente são os mais graves e difíceis de se avaliar, pois o sentimento de culpa, de angústia, de depressão, de dificuldades de relacionamento e sexuais na idade adulta, poderá se manifestar em razão dos fatores decorrentes desses quadros traumáticos. O comprometimento se refere à ignorância e/ou à esquiva em lidar com tais conteúdos, quando há a repetição do abuso ou do silêncio em torno da criança. (Gabel, 1997).

Especificamente, o sofrimento da vítima do abuso sexual (que nem sempre é físico, mas pode ser também psíquico), traz efeitos “destruidores” como a vergonha pelo abuso sofrido se internalizar como uma “chaga narcísica”, dificilmente exteriorizada. (Agostini apud Gabel, 1997). Pode-se encontrar vítimas com angústias (sem aparente causa, percebida pelos outros), com dificuldades de relacionamentos afetivos e sexuais futuros, ou ainda com a concepção de que todo o ambiente é nocivo. Summit (apud Gabel, 1997) coloca que este último aspecto é uma forma de síndrome da adaptação das crianças vítimas de abusos sexuais.

A vítima se abstrai de sua própria infelicidade e de seu sofrimento, por não encontrar nos parentes o papel de protetores, justamente por serem os agressores. Assim, estes passam a ser estranhos. Essa omissão também pode caracterizar os adultos alheios à família, que em geral preferem ignorar o que se passa. Na maior parte dos casos, a vítima continua a sofrer as seqüelas por muito tempo depois de ter vivido a violência. (Gabel,1997).

que tais seqüelas virão à tona através da consciência e da maturidade manifestadas na idade adulta e, que auxiliam no entendimento da proporção das situações vividas e dão condições para que se possa fazer algo.(Ricotta, 1999, p. 19).

Entretanto, é preciso explicitar a correlação entre abuso sexual e pedofilia. Etimologicamente, o abuso indica afastamento do uso (“us”) normal, um mau uso e/ou excessivo. Significa, pois, ultrapassar limites e, portanto, transgredir. Já a pedofilia é o abuso sexual contra crianças e adolescentes, fato essencialmente marcado pela experiência que extrapola a consideração pelo outro no que tange o seu consentimento e possibilidade física e emocional de lidar com ações sexuais forçadas.


Violência Sexual e Pedofilia

A definição da violência sexual na infância e na adolescência é apontada por Ferrari (2004) como contatos entre uma criança/adolescente e um adulto (familiar ou não), onde este utiliza o primeiro como objeto de gratificação de suas necessidades ou desejos sexuais, causando dano ao objeto/vítima. Nestas necessidades, estão contidas fantasias, anseios sexuais ou comportamentos recorrentes, intensos e sexualmente excitantes, em geral envolvendo: objetos não-humanos; sofrimento ou humilhação, próprios ou do parceiro; crianças ou outras pessoas sem o seu consentimento, tudo isso ocorrendo durante um período mínimo de 6 meses.

Para alguns pedófilos, tais fantasias ou estímulos são obrigatórios para a excitação erótica e sempre incluída na atividade sexual. Em outros casos, as preferências ocorrem episodicamente (por exemplo, durante períodos de stress); ao passo que em outros momentos, o indivíduo é capaz de se excitar sexualmente sem fantasias ou estímulos parafílicos. Entretanto, o fundamental aspecto desta relação é o sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional e áreas importantes da vida do agressor ou vítima. (Ferrari, 2004).

Segundo Azevedo (apud Ferrari, 2004), a violência sexual contra a criança/ adolescente supõe ocorrências intra e extrafamiliares, com atos classificáveis em três grupos:

1) Sem Contato Físico: mas com o abuso verbal, telefonemas obscenos, vídeos/filmes obscenos, voyeurismo;

2) Com Contato Físico: com atos físicos-genitais que incluem bulinações (“passar a mão”, manipulação de genitais); coito (ou tentativa de), contato oral-genital/anal; pornografia, prostituição infantil (exploração sexual para fins econômicos) e o incesto (atividade sexual entre parentes próximos, tanto de sangue quanto de afinidade);

3) Contato Físico com Violência: como estupro, brutalização, assassinato (crianças emasculadas) e o uso da força, da ameaça ou da intimidação.

Além disso, Ferrari e Vecina (2002) acrescentam que existem quatro precondições que levam um indivíduo a cometer o abuso sexual infantil, considerando os aspectos sócio-econômicos e culturais em que se encontram os envolvidos:

1) Motivação: Socioculturalmente, o indivíduo utiliza imagens eróticas de crianças em publicidade, em pornografia infantil, na repressão da masturbação, nas relações extramatrimoniais, a necessidade de poder ou de controle ou uma anormalidade biológica.

2) Supressão de Barreiras Internas: o indivíduo tenta superar as barreiras internas que bloqueiam seu desejo de se relacionar sexualmente com crianças/adolescentes, através de fatores desinibidores, como: o álcool, a psicose, a senilidade ou fracasso na repressão do incesto dentro da dinâmica familiar.

3) Supressão de Barreiras Externas: superando-os através: da ausência, de enfermidade ou do distanciamento da mãe, da falta de vigilância entre outros.

4) Superação da Possível Resistência Infantil: é a capacidade da criança e/ou adolescente em evitar ou resistir à violência/abuso sexual. No entanto, há de se considerar a sua insegurança emocional para obter tal êxito.

Ferrari (2004) relata que os pedófilos têm grande oportunidade de expandir os seus instintos, pelo incentivo da própria sociedade valorizar o sexo e o prazer. Além disso, encontram-se diversos meios para a sua concretização, através do próprio desenvolvimento tecnológico que garantem o anonimato, como: fotografias, cinema, internet, telefone. Contudo, o fotografar ou publicar cenas de sexo explícito envolvendo menores legais, abrange como criminalidade não só o agressor em si, mas incluem todos aqueles que de alguma forma contribua para a ação descrita, sejam o fotógrafo, o editor, o proprietário da revista, do jornal, etc.

De acordo com Azevedo (2001), a pedofilia, pela Lei 8.072/90, é considerada crime hediondo, o que determina rigor absoluto, inafiançável ou possibilidade de liberdade provisória para o agressor. Assim, deve responder ao processo preso em regime fechado e cumprir a pena integralmente. Entretanto, o autor acrescenta que a legislação brasileira, com relação à crimes hediondos ou condutas reprováveis, como a pedofilia, só são amparadas legalmente pelo artigo 24 do ECA, cujo agressor cumpre apenas de 1 a 4 anos de detenção.

A pedofilia, além de ser caracterizada pelo sentimento e desejo de manter relações sexuais com crianças, traz uma possível razão psicológica no que tange ao desenvolvimento emocional deficiente. O agressor, desde a infância, não tem claro o seu “eu” e se utiliza da vítima como um “eu-objeto idealizado”. (Ferrari e Vecina, 2002).

Há de se fazer uma ressalva significativa quanto ao assunto tratado: violência sexual infantil e pedofilia são termos distintos, mas que comumente são apresentadas e entendidas como sinônimos. A violência sexual é o uso da criança como objeto de gratificação por parte do agressor. Uma destas formas de agressão seria a pedofilia, que pode ser compreendida em 2 subtipos principais: o incesto e a exploração sexual.

Segundo Azevedo (2000), estes subtipos se referem ao incesto, como toda e qualquer atividade de caráter sexual, envolvendo crianças menores legais e um adulto familiar próximo ou responsável por ela. Mas, há de se considerar o contexto sócio-cultural dos envolvidos nesta prática, bem como não restringir o espectro sexual à indivíduos maduros. Já a exploração sexual, implica na participação de menores legalmente, em atividades de prostituição e pornografia como comercialização sexual.


Conclusão

Pode-se pensar nas três causas principais, que leva a pedofilia, segundo Ferrari (2004):

A primeira refere-se à sexualidade reprimida: crianças que apresentam um desenvolvimento afetivo-emocional conturbado, com dificuldade para manifestar e expressar seu desenvolvimento sexual, seus questionamentos, curiosidades, identificações com figuras de apego. É freqüente o pedófilo se aproximar de crianças afetivamente carentes, ou seja, daquelas que respondem a sua sedução, mesmo que ele seja um desconhecido: a criança é seduzida por quem lhe dedica uma atenção que os pais não lhe dão.

A segunda causa que leva à pedofilia, encontra-se na pouca idade em que crianças, principalmente em países subdesenvolvidos, mergulhados na prostituição, trocando escola e as brincadeiras infantis por práticas libidinosas que lhes rendem algum dinheiro para sobreviver. A pobreza ocasiona muitas vítimas, mas as mais atingidas são as crianças.

A terceira causa é a mais grave delas, pelo anonimato, pela ausência de informação e pelo grau de periculosidade. Está no campo dos desvios de personalidade, no proceder de fronteiriços que se apresentam, aparentemente, dentro da mais absoluta correção, mantendo em segredo um mundo povoado de abominável comportamento.

Segundo Cabral e Nick (2001), Freud define o Princípio do Prazer como:

Todo o comportamento humano é basicamente regido pela necessidade urgente de gratificação dos instintos, quer de forma direta, quer alucinatória (através de fantasias). De acordo com a primeira formulação freudiana, as atividades inconscientes (ou do ID) são completamente dominadas por este princípio: a fantasia não se distingue da realidade e, portanto, a satisfação do prazer pode ser imediata. Mas, com o desenvolvimento do ego, a pessoa torna-se consciente das exigências da realidade (Princípio de Realidade); e, quando se estabelece a instituição moral do SUPER EGO, (a pessoa passa a ter consciência de satisfações ideais) (Cabral e Nick, 2001, p. 235).

Segundo Freud, (1978) o impulso desejoso continua a existir no inconsciente à espreita de oportunidade para se revelar, concebe a formação de um substituto do reprimido disfarçado e irreconhecível, para lançar a consciência substituta ao qual logo se liga a mesma sensação de desprazer que se julgava evitada pela repressão. Esta substituição da idéia reprimida – o sintoma – é protegida contra as forças defensivas do ego e em lugar do breve conflito, começa então um sofrimento interminável.

Um paciente que sofre de um desvio sexual, apenas será capaz de trocá-lo por algo melhor quando sua capacidade para um amor adulto for realmente intensificada. Sabe-se que fantasias e compulsões sexuais aberrantes podem desaparecer de um dia para o outro, quando o homem por elas dominado se apaixona. Se capaz de apaixonar-se, no entanto, exige certo grau de maturidade que o desviado não alcançou, e apenas quando está a ponto de superar sua tendência aberrante pode relacionar-se emocionalmente com outra pessoa, com suficiente segurança para apaixonar-se. (Storr, 1976).

Um amor adulto certamente poderá ocorrer, mas apenas em circunstâncias que lhe permitam travar relações novas e melhores com outras pessoas das quais possa retirar uma convicção íntima de ter algum valor. A parte mais importante da tarefa do psicoterapeuta, portanto, é fornecer uma base de completa aceitação e segurança emocional com a qual o paciente pode amadurecer e da qual ele, finalmente, se possa desligar para estabelecer relações mais proveitosas. (Storr, 1976).

Outro ponto que merece destaque é a Visão Rouseauriana sobre a inocência das crianças. O sentido da inocência infantil resultou numa dupla atitude moral com relação à infância: preservá-la da sujeira da vida e especialmente da sexualidade tolerada – quando não aprovada – entre os adultos e fortalecê-la, desenvolvendo o caráter e a razão. (Rousseau apud Ariès, 1981).

Na questão do poder: indícios de pedofilia onde o adulto em geral, independentemente de seu sexo, detém poder sobre a criança (Saffioti, 2000). Sabe-se que muitas das concepções adultocêntricas que existem na sociedade brasileira (sabendo-se da existência de pedofilia em outras sociedades) estão presentes na visão machista, segundo quando a criança se vê na condição de ter de fazer demonstrações, tendo de obedecer aos pedidos dos mais velhos, sem se saber se querem fazer o que lhes é pedido. Outro ponto que se pode levantar é que o pedófilo é muito inseguro, segundo Ferrari (2004), porque a criança não reclama, e quando reclama não faz de maneira eficaz.

Embora tenha uma legislação de Primeiro Mundo, que visa a defesa e a proteção integral de crianças e adolescentes, o Brasil apresenta um triste cenário: participa, é conivente e é conhecido como integrante da rota mundial de turismo sexual. Além de se destacar pelo comércio de músicas e danças erotizadas, próprias do carnaval exibidas em programas de televisão expondo crianças de todas as idades. (Ferrari, 2004).

È passível de concluir que não ocorre um único fator que contribui com a Pedofilia. Essa é uma patologia e merece atenção por parte do sistema penitenciário, da sociedade e dos profissionais que lidam com esta. Apesar de que certos pacientes só procuram ajuda psiquiátrica porque seus desejos os colocaram em conflito com a lei.

Não há cura para a pedofilia, mas é possível controlar os impulsos com o uso de medicamentos e ajudar o indivíduo a entender o que ele sente com psicoterapia, construindo uma maturidade emocional onde ele possa estabelecer novas relações, mais saudável e aceitas socialmente.

Trabalhar com o pedófilo não é uma tarefa fácil, para o psicólogo, pois exige empenho, dedicação e a disposição para lidar com o lado mais sombrio do ser humano. O profissional deve ter consciência de que essa intervenção interfere no seu psiquismo e pode despertar sentimentos conflituosos que vão desde a compaixão pela vítima e repulsa ao agressor até uma espécie de “turvação”, que o impeça de enxergar coisas essenciais ao decorrer da análise. Portanto, além da supervisão deveria submeter-se a seu próprio processo analítico para trabalhar seu material inconsciente recalcado e conhecer-se a fundo, inclusive em suas limitações. A leitura, assim como a atualização acerca do tema e a participação em grupos de estudo é essencial, mas, sobretudo, a sensibilidade; pois é este o sentimento aliado a uma autêntica empatia que o levará a auxiliar o analisando na elaboração de sua patologia.

È recomendável assistir um filme chamado “O Lenhador” que mostra um lado mais humanizado da pedofilia onde as fantasias que dominam os pedófilos não são resultado de deliberação ou escolha voluntária, mas está fora dos limites do controle consciente, que a partir da consciência da patologia pode vir a ser controlado. Seria muito simples para a diretora do filme dar um simples desfecho ao drama de “Walter” (personagem principal no filme), fosse “curando-o” ou mesmo eliminando-o da sociedade, mas ela optou por demonstrar um outro lado, um pedófilo lutando que não quer mais agir e ser visto como tal.

Certos ou errados, monstros ou humanos, doentes ou pervertidos, os vários “Walters” andam entre nós e, o objetivo deste trabalho foi compreender as possíveis angústias e desejos do pedófilo, e não meramente recriminá-lo ou julgá-lo, embora respeitando as determinações legais de crime, existentes nesta prática.

Ainda se tem muito que aprender a respeito da maneira como se desenvolvem os seres humanos e sem dúvida nossos métodos de tratamento serão substituídos com o tempo. Apenas muito recentemente, o Homem Ocidental começou a estudar objetivamente sua vida sexual e ignorância a respeito desse aspecto fundamental é ainda profunda. Ignorância, preconceito e condenação sempre andam juntos. O desviado sexual é muitas vezes olhado com medo e horror que resultam em uma falta de compreensão. Se este trabalho tiver demonstrado que as pessoas de comportamento sexualmente aberrante compartilham de nossa mesma condição humana, ele terá atingido seus objetivos.

RedePsi

Quando o amor acaba


O fim de uma relação amorosa nos sobrecarrega tanto psíquica quanto

fisicamente; mas do ponto de vista evolutivo a montanha-russa emocional na

qual embarcamos nessas situações tem um objetivo: nos preparar para novos

recomeços

por Aparecida Souza Corrêa



O fim de um relacionamento afetivo

costuma provocar uma revolução em

nossa vida emocional.

Principalmente quando o término

nos pega desprevenidos – ou a

decisão parte da outra pessoa. Um

turbilhão de sentimentos como

raiva, insegurança, carência,

saudade, dor e desejo de vingança

se misturam e nos invadem. Nesse

momento atribulado, alguns tomam

atitudes extremadas, se expõem,

esperneiam, suplicam; outros se

recolhem. Qualquer que seja a

reação, é inevitável escaparmos do

sofrimento. O rompimento nos

sobrecarrega tanto psíquica quanto

fisicamente – muitas vezes

causando reações como uma espécie de “bloqueio” que pode durar semanas ou até meses.

Mas, pensando bem, não seria mais sensato e saudável – pelo menos do ponto de vista

biológico – deixar logo de lado toda essa dor e recomeçar de uma vez por todas a busca por um

novo parceiro para procriação? Certo, há questões psíquicas envolvidas, como a necessidade de

realização do luto e do processamento de todo o aprendizado emocional que a situação traz.

“Mas se toda a natureza trabalha no sentido de garantir a continuidade da espécie, por que,

então, não desenvolvemos um método com o qual seja possível simplesmente descartar um

romance malsucedido, sem tanto dispêndio de tempo e energia?”, questiona a antropóloga

Helen Fisher, da Universidade Rutger, Nova Jersey.

Ela mesma admite que talvez nos aproximemos mais de uma resposta se nos voltarmos para o

início do relacionamento – e, mais precisamente, ao momento em que nos apaixonamos. A

utilidade evolucionária do encantamento que, por vezes, nos arrebata parece clara: nos

concentramos totalmente em uma pessoa que escolhemos para o acasalamento, sem gastar

tempo ou energia com assuntos secundários. “Mas o que se passa na cabeça de homens e

mulheres apaixonados?”, pergunta-se Fisher.

© TODD DAVIDSON/ILLUSTRATION WORKS/CORBIS/LATINSTOCK

Para estudar a questão e tentar responder a essa

pergunta, ela decidiu unir-se à neurocientista Lucy

Brown, da Escola de Medicina Albert Einstein, e ao

psicólogo Arthur Aron, da Universidade Estadual de

Nova York. O grupo recorreu à tomografia por

ressonância magnética funcional, com a qual é possível

acompanhar a atividade do cérebro. Enquanto estavam

dentro do tomógrafo, os voluntários que consentiram

em participar do estudo observavam, alternadamente, a

foto da pessoa que amavam e a imagem de uma pessoa

conhecida com quem tivessem um relacionamento

afetivamente neutro. De vez em quando, eles tinham

de resolver uma atividade como distração, para que

sensações e sentimentos pudessem se atenuar. “Nessas

diferentes situações comparamos a atividade cerebral e

percebemos que as duas regiões cerebrais estavam

especialmente envolvidas durante a observação do

amado: partes do núcleo caudado e da área tegmentar

ventral (ATV) direita no mesencéfalo.

IRONIAS DA NATUREZA

É interessante notar que em ambas as regiões há

células neurais que se comunicam através da

substância mensageira, a dopamina, e reagem de forma

sensível àquilo que causa bem-estar – como alimentos

saborosos, por exemplo – ou mesmo à possibilidade de

experimentá-los. O fato de a paixão estar relacionada a

esse “sistema de recompensa”, indica que o que

estamos habituados a chamar de “sentimento” talvez

seja, na verdade, um “estado de motivação” para a

busca de algo – comparável à fome, que nos leva a buscar e consumir alimentos. Se pensarmos

assim, o cenário fica menos romântico. Afinal, talvez não nos apaixonemos (como muitas vezes

gostamos de pensar) em razão de uma trama bem engendrada do destino ou dos belos olhos do

outro, de seu charme e de sua sensualidade. Sob essa óptica o encantamento se vale, antes, de

mecanismos neurológicos cuja função é aplacar uma necessidade biológica. E garantir a

sobrevivência da melhor forma possível.

Há alguns anos, a equipe de Fisher estudou a atividade cerebral de -pessoas apaixonadas,

porém infelizes, que estavam sofrendo profundamente pelo fim de um relacionamento amoroso.

Embora os pesquisadores reconheçam não saber com precisão o que se passa no cérebro das

pessoas nessas situações, admitem que, aparentemente, a elevada atividade na ATV e em

regiões do núcleo caudado ligadas a ela, ativas quando o relacionamento parecia ir bem, ainda

se mantém. Será então que continuamos amando, apesar de termos sido abandonados?

Tão gostoso: proximidade do ser amado desperta

atividade neural similar à que surge quando vemos

– e desejamos degustar – um alimento saboroso

Psiquiatras dividem o

processo de separação em

duas fases: primeiro vem o

protesto; depois, o

desespero. Durante a fase

de protesto, em geral a

pessoa abandonada tenta

obstinadamente recuperar o

objeto de seu amor. Tenta

entender o que deu errado e

como poderia reacender o

interesse do outro. Algumas

chegam a fazer cenas

dramáticas diante do exparceiro;

outras choram

sozinhas, saudosas e, por

algum tempo, não vêem

nada no mundo que lhes

atraia a atenção. Qualquer

que seja a reação, porém, em vez de desaparecer, a paixão parecer crescer. Na base dessa

reação estão processos neurais.

Segundo os psiquiatras Thomas Lewis, Fari Amini e Richard Lannon, da Universidade da

Califórnia em São Francisco, a reação de protesto está atrelada à dopamina e à noradrenalina.

Em experiências com animais, elevadas concentrações desse neurotransmissor são associadas

não apenas ao aumento da vigilância, mas também fazem com que o indivíduo solitário

identifique a falta e busque o que necessita.

O fato de a concentração da dopamina aumentar justamente logo após o abandono poderia

esclarecer por que o interesse pela pessoa perdida fica mais intenso nessa fase. Além disso, o

neurocientista Wolfram Schultz, da Universidade Suíça de Fribourg, descobriu há alguns anos o

que acontece no cérebro dos macacos quando uma guloseima que lhes havia sigo apresentada

“desaparece” repentinamente: neurônios do sistema de recompensa passam a trabalhar por um

período especialmente longo, como que para suprir (ou tentar entender) a perda.

Mas que ironia da natureza! Mal se deixa de ter acesso ao objeto do amor, intensifica-se

justamente a atividade daqueles circuitos cerebrais que provocam o desejo mais pronunciado.

Mas não é só o mecanismo de recompensa que fica severamente esgotado na primeira fase de

privação amorosa. Além do desejo intensificado, surge o medo, como se os indivíduos

estivessem mais expostos e vulneráveis. Segundo o neurocientista Jaak Panksepp, da

Universidade Estadual Bowling Green, em Ohio, nos mamíferos há uma reação neuronal de

pânico em cadeia quando a mãe se ausenta. Segundo o pesquisador, nessas situações os

filhotes se tornam imediatamente inquietos, choram e apresentam palpitações. Nos humanos,

resquícios mentais dessa experiência podem ressurgir quando ocorre uma nova separação,

ativando tanto mecanismos psíquicos quanto cerebrais.

Quase sempre o parceiro que não queria a separação é tomado, em alguns momentos, pela fúria

– mesmo que a relação tenha terminado de forma transparente e sincera. O psicólogo Reid

Meloy, da Universidade da Califórnia, em San Diego, denomina essa reação
abandonment rage

(raiva do abandono). O fenômeno também parece outro estranho capricho do processo

evolutivo, se considerarmos que a ira ou o ódio dificilmente farão o desertor voltar.

E como o amor pode se transformar tão repentinamente em ódio? Se examinarmos bem, os dois

sentimentos não são antagônicos – o oposto do amor seria o desinteresse. Aparentemente, a

raiva do abandono não exclui o amor. O seguinte experimento demonstra que amor e ódio estão

muito próximos um do outro: se estimularmos eletricamente o circuito de recompensa no

cérebro de um gato, ele expressa forte sentimento de bem-estar. Porém, assim que

interrompemos a estimulação, o animal arranha e morde. Esse tipo de reação a expectativas

não correspondidas é conhecido como “resposta de frustração-agressão”.

© DIGITALIFE/SHUTTERSTOCK

Quando pessoas apaixonadas olham para seus parceiros, tornam-se ativas as partes do

sistema de recompensa do cérebro, as quais também geram o desejo. Infelizmente, isso

não se altera logo que a pessoa amada nos abandona

De alguma forma, parece que nossos antepassados desenvolveram esse infeliz curto-circuito

neuronal entre amor e ódio – talvez com o objetivo bem prático de solucionar problemas de

procriação. Provavelmente, todas as etapas vividas convergem justamente para esse

mecanismo – que nos possibilita de fato encerrar um relacionamento amoroso fracassado para

que possamos ousar um novo começo. Além disso, é a raiva do ex que faz com que os pais, no

caso de uma separação, lutem tão intensamente pelo (que acreditam ser o) bem-estar de sua

prole. Quantas vezes, homens e mulheres anteriormente equilibrados se transformam

repentinamente durante uma separação, tentando conseguir o que acreditam ser “o melhor”

para seus filhos, da pior maneira possível. Nos Estados Unidos há juízes que mandam instalar

um botão de emergência em sua mesa, caso os brigões que estão se divorciando resolvam se

agredir fisicamente durante a audiência.

Mas, em algum momento, as pessoas desistem. E aí inicia-se a segunda fase da separação: é o

momento de lidar com a perda e resignar-se. Nessa fase, os mais propensos ao uso de álcool

podem recorrer à substância; outros se isolam ou passam a maior parte do tempo apáticos. “Em

1991, um grupo de sociólogos da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, entrevistou 114

homens e mulheres que tinham sido deixados por seus amados nas oito semanas anteriores.

Mais de 40% sofria de depressão. Dos que receberam esse diagnóstico, 12% classificaram a

patologia como mediana ou intensa”, observa Helen Fisher.

A fase de resignação também se reflete na rede de recompensa neuronal. Filhotes abandonados

por suas mães, que inicialmente protestaram e entraram em pânico, mais tarde experimentam

um estado de resignação, uma espécie de letargia, em “resposta de desespero”. Quando esses

animais compreendem que suas esperanças não serão mais realizadas, as células produtoras de

dopamina no mesencéfalo reduzem sua atividade. A falta desse neurotransmissor, por sua vez,

leva ao desânimo e, nos casos mais graves, à depressão.

Num primeiro momento, assim como o “amor-ódio”, o desespero também parece

contraproducente. Para que perder tempo com aflições? Alguns especialistas, porém, acreditam

que a depressão se desenvolveu como mecanismo de superação. Existem toneladas de teorias

sobre esse tema. Uma hipótese extremamente interessante é defendida pelo antropólogo

Edward Hagen, da Universidade Humboldt de Berlim, e pelos biólogos Paul Watson e Paul

Andrews, da Universidade do Novo México, assim como pelo psiquiatra Andy Thomson, da

Universidade da Virginia. Segundo eles, o alto ônus psíquico, físico e social causado pela

depressão tem sua utilidade: seus sintomas funcionam como claro sinal de que a pessoa afetada

precisa urgentemente de apoio daqueles que a rodeiam.

Imaginem uma moça do período paleolítico cujo companheiro se junte abertamente a outra

mulher. No início, ela protesta furiosa tentando forçar seu parceiro a abandonar o
affair. Ela

pede ajuda a amigos e aos companheiros do clã, mas suas súplicas não são atendidas. Por fim,

ela entra em profunda depressão. Isso faz com que a família finalmente expulse o homem infiel.

Eles apóiam a jovem abandonada até que ela reúna forças suficientes para procurar um novo

companheiro e conseguir novamente colaborar com a alimentação e os cuidados das crianças.

A depressão, porém, oferece mais uma vantagem evolucionária: nos obriga a encarar os fatos

como são. Pessoas depressivas vivem aquilo que o psicólogo Jeffrey Zeig, da Fundação Milton H.

Erickson, em Phoenix, Arizona, chama de “falha da negação”. Somente a depressão leva uma

pessoa a aceitar finalmente o apoio oferecido ou a tomar uma decisão que, em última instância,

pode acabar tendo efeito positivo sobre suas chances de sobrevivência e procriação.

A natureza humana tem bons motivos para ser moldada de forma que soframos massivamente

pela privação repentina do amor – no início, para que possamos protestar e tentar recuperar o

objeto de nosso afeto e, por fim, quando nada disso funciona, para que deixemos de lado esse

objeto e possamos recomeçar.

Revista Mente e Cérebro

Por que maltratamos as pessoas que gostamos?

“As palavras são como flechas lançadas, uma vez atiradas não voltam”. Provérbio oriental Por que maltratamos as pessoas que gostamos, que amamos, que fazem grandes sacrifícios na convivência no nosso dia-a-dia? Tanto como pai, esposo, filho e nos meus vinte anos como terapeuta, professor e gerente de recursos humanos já conheci muitos casos que sempre me deixaram indignado. Será que não sabemos ou não queremos gostar das pessoas ou não deixamos as pessoas gostarem de nós? Será que não gostamos de nós mesmos? Será que no fundo sofremos de uma baixa auto-estima que compensamos nas relações familiares, amorosas, na amizade e no trabalho? Parece que uma boa resposta é que não aprendemos a gostar de nós mesmos, por mais absurdo que possa parecer. Milton Erickson eminente psicoterapeuta americano dizia que o segredo de uma vida com qualidade está no que e como aprendemos. Tudo em nossa vida é aprendizado e ensino. Só podemos ensinar aquilo que aprendemos. Seja em conteúdos, seja principalmente em valores. Então a questão central é como aprender melhor para conviver melhor, para viver melhor. E o processo todo começa na família, depois na escola, depois no trabalho e finalmente na comunidade ou na sociedade. Começamos a encontrar uma lógica nos comportamentos neuróticos e normóticos de pais e filhos, de chefes e empregados e entre governantes e cidadãos. Como dizem os holistas tudo se relaciona com tudo, não existe nada neutro em nossas vidas, portanto somos responsáveis pelo que pensamos, sentimos e fazemos. Nossa grande poeta Cora Coralina dizia “Feliz aquele que ensina, pois transfere o que aprendeu”. Surge a questão como ensinar melhor? Como viver e conviver melhor? Sem medos, sem traumas neuróticos e normóticos. Jean-Yves Leloup psicólogo, sacerdote isecaste e teólogo nos ensina que precisamos valorizar a essência humana, valorizar o positivo e trabalhar e integrar o negativo, ou as cobras venenosas, os cachorros selvagens e os tigres ansiosos que criamos. Precisamos aprender a domar a criatura que nos tornamos. Ver, perceber, ouvir e escutar com todos os sentidos o que a vida nos dá de positivo, mesmo nas coisas difíceis de compreender há um significado positivo. Precisamos ver com os olhos dos cegos, ouvir com os ouvidos dos surdos e a falar com a fala dos mudos. Será difícil dependendo do nosso esforço na adaptação ao mundo. Através das obras de Milton Erickson, descobri muitas coisas novas e interessantes como: os recursos e soluções para nossos problemas estão dentro de nós e não fora de nós como aprendemos em nossa educação tradicional e ocidental. Milton Erickson apesar de sua limitação física devido a duas pólios gravíssimas, dislexia, daltonismo e outros problemas de saúde mostrou e ensinou milhares de pacientes e alunos que não existe o negativo na vida, tudo depende de como olhamos. Se tivermos uma predisposição para aprender com as situações difíceis, iremos conseguir transformar problemas em soluções e dificuldades em recursos. Erickson falava que precisamos conhecer nossa primeira morada que é nossa casa interna. Se ela estiver bem, confortável e acolhedora, teremos uma visão de mundo positiva, forte e saudável. Tem gente que mora em favela e sente-se como morasse numa mansão e tem quem vive numa mansão e sente-se como se fosse um mendigo dormindo na rua. Sempre temos escolhas, possibilidades, alternativas, detalhes, partes, conjunto, cores, tudo tem sua importância em cada momento mágico em nossas vidas. Precisamos conhecer, observar e perceber as coisas para tomarmos boas decisões. Nossas escolhas são conseqüência do nível de conhecimento, do que observamos e do que percebemos. Tem pessoas analfabetas que conhecem muito, observam e percebem com uma nitidez e precisão invejável e tomam decisões adequadas. Enquanto outras pessoas com curso superior não conhecem quase nada, observam e percebem muito pouco e tomam decisões inadequadas. O que está errado? A resposta é como está sua casa interna, como você está desperto consigo próprio, como você gosta e se sente bem na sua própria companhia. Você é seu melhor amigo. Você não se sabota. Você quer ser feliz e você percebe que você pode ser feliz, agora e acredita, aí o milagre acontece. Tudo na vida tem um significado, um para que como dizia Viktor Frankl o Terapeuta da esperança após passar por três campos de concentração e criar a Logoterapia, ou a terapia do sentido existencial e se tornar um modelo, uma referência mundial de humanismo. Frankl transformou o ódio nazista em amor, a fome, a lama, o crematório, a câmara de gás, os experimentos macabros, o suicídio em massa numa Escola Terapêutica que foca a alma humana em sua grandeza. As pessoas muitas vezes sofrem por longos períodos porque aprenderam a sofrer, foi à única opção oferecida. Toda essa reflexão nos mostra como fomos educados para aprender a nos relacionar com o outro. O grande fenomenólogo alemão Martin Buber em seu livro Eu e TU descreve que na vida tudo é relação. E relação significa construir pontes, Eu de um lado e o Tu do outro lado, se a ponte ruir é por que houve falhas na construção ou manutenção dos pilares, um impacta no outro, o um deixa de existir quando entramos na relação, há uma fusão e uma transformação na percepção do que somos e do que o outro é. Nos relacionamentos familiares é onde a qualidade da relação mais se mostra, se apresenta. Apesar dos esforços de ambas as partes inúmeros conflitos aparecem e muitas vezes de difícil solução, onde às vezes a solução é deixar que o futuro do tempo resolva por si, ou melhor, os conflitos vão se acomodando e a tormenta do furacão passa e vem a calmaria. Às vezes é preciso saber esperar, administrar a ansiedade e aprender a confiar na capacidade auto-reguladora dos seres humanos, eles são capazes por incrível que pareça de permitir ser felizes. Vou narrar uma pequena história descrita pelo Dr. José Augusto e pela Dra. Ângela Mendonça no livro Abrindo Portas com Amor, onde poderemos analisar o nosso cotidiano. J.Augusto conta que um dia sua filha de doze anos solicitou autorização para trazer algumas colegas à noite para comer uma pizza na sua casa. Tudo acertado, como ele e a esposa trabalhavam na clinica o dia todo chegando sempre à noite já providenciaram o que a filha pediu e assim o dia transcorreu normal. No final do dia ele saiu um pouco mais cedo, foi para casa e lá encontrou a filha com as colegas preparando a pizza. Ele conversou com as colegas da filha e ficou na sala de TV, passado algum tempo ouviu um barulho forte na cozinha. Saiu correndo e quando chegou lá viu que uma colega de sua filha havia deixado cair uma garrafa de refrigerante e esparramou cacos de vidros e coca-cola para todo lado. A sua reação no momento foi socorrer a menina que estava paralisada e chorando pelo estrago que cometera. Ele disse para ela ficar tranqüila, colocou a menina com as outras colegas na sala, levou os refrigerantes e a pizza e acalmou todas. Passado alguns minutos, limpando a sujeira na cozinha começou a pensar, e se fosse com a minha filha qual teria sido minha reação? Provavelmente teria danado e repreendido fortemente com ela. Pensou Por que maltratamos as pessoas que gostamos? Talvez seja porque achamos que são nossas propriedades e estão no mundo para servir de amortecedor de nossas coisas mal resolvidas e deixamos de criar laços amorosos e de ternura que mantemos com estranhos ao lar. No caso de J. Augusto ele diz que passou a tratar seus filhos e sua mulher como se fossem “seus colegas ou a mulher de um vizinho qualquer” e percebeu que esta forma estranha melhorou nos cuidados amorosos com a família. Tenho visto na minha vida pessoal e no consultório também muitos casos assim. Pais que solicitam terapia para a filha que está no segundo casamento, com dois filhos pequenos e segundo eles não têm estabilidade emocional para manter um relacionamento como eles aparentemente mantêm. À medida que vamos ouvindo essa jovem paciente vamos percebendo que ela tornou-se apenas o “saco de pancadas” dos pais que descarregam nela suas coisas e “separações” mal resolvidas e não tem a coragem de auto-observarem e aprenderem a viver de forma diferente e mais saudável para toda a família. Precisamos dirigir nosso viver para a competência e não para as falhas do individuo: para seus recursos, não para as suas fraquezas; para suas possibilidades, não para suas limitações conforme cita Willian O’Hanlon ex-aluno de Erickson. É como dizia o saudoso Dr. Erickson “arvores boas dão frutos bons”. Precisamos reaprender a resgatar aquela árvore boa que éramos quando crianças, e que em função das tempestades da vida fomos perdendo aquela essência maravilhosa que recebemos de presente. Marcos Bueno

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Reembolso de consultas psicológicas


Uma boa notícia para aqueles que possuem plano de saúde: a Agência Nacional de Saúde – órgão do governo que regulamenta os planos de saúde – divulgou uma lista com novos procedimentos básicos que os convênios terão que cobrir a partir do mês de junho. Entre eles, estipulou-se que os convênios serão obrigados a pagar 40 sessões de psicoterapia por ano para seus clientes. Antes eram apenas 12 sessões.

Isso é um grande avanço, pois 12 sessões equivalem apenas a 3 meses de terapia.

O que acontecia na prática era que a pessoa acabava pagando particular o resto das sessões necessárias.

Existem algumas ressalvas:

Sessões com psicólogo – cobertura obrigatória de 40 consultas/sessões por ano de contrato quando preenchido pelo menos um dos seguintes critérios: pacientes com diagnóstico de esquizofrenia, transtornos esquizotípicos e transtornos delirantes (CID F 20 a F 29); pacientes com diagnóstico de Transtornos da infância e adolescência (CID F 90 a F 98); e pacientes com diagnóstico de Transtornos do desenvolvimento psicológico (F80 a F89).
Sessão de psicoterapia -cobertura obrigatória de 24 sessões por ano de contrato quando preenchido pelo menos um dos seguintes critérios: pacientes com diagnóstico de Transtornos neuróticos, transtornos relacionados com o “stress” e transtornos somatoformes (CID F40 a F48); pacientes com diagnóstico de Síndromes comportamentais associadas a disfunções fisiológicas e a fatores físicos (F 50 a F 59); pacientes com diagnóstico de Transtornos do humor (CID F 30 a F 39); e Pacientes com diagnóstico de Transtornos mentais e comportamentais devido ao uso de substâncias psicoativas (CID F 10 a F 19).

Fonte: http://www.ans.gov.br/



Valor de reembolso é o valor contratado entre o paciente e a operadora do plano de saúde para todos os procedimentos cobertos.


Esta informação poderá ser obtida na sua operadora e é obrigação da operadora fornecê-la.


Verifique o valor de reembolso para consulta de seu plano e informe-nos, verificaremos a possibilidade de atender por um valor semelhante.





domingo, 2 de outubro de 2011

Síndrome do Pânico

Tratamento da Síndrome do Pânico

A expressiva maioria dos pacientes com Síndrome do Pânico que procuram o clínico geral ou especialistas que não o psiquiatra, podem ser portadores de outros quadros emocionais associados à essa doença, principalmente de quadros ansiosos, somáticos e depressivos.

Normalmente são quadros cheios de sintomas físicos de origem emocional ou agravados pelas emoções.

O Distúrbio do Pânico habitualmente se inicia depois dos 20 anos, é igualmente prevalente entre homens e mulheres, portanto, em sua maioria, as pessoas que tem o Pânico são jovens ou adultos jovens na faixa etária dos 20 aos 40 anos e se encontram na plenitude da vida profissional.

Normalmente são pessoas extremamente produtivas, costumam assumir grandes responsabilidades e afazeres, são perfeccionistas, muito exigentes consigo mesmas e não costumam aceitar bem os erros ou imprevistos.

Depois das primeiras crises de Pânico, por muito tempo os pacientes recusam o tratamento para esse tipo de transtorno psicoemocional.

Normalmente costumam ser pessoas que não se vêem sensíveis aos problemas da emoção, julgam-se perfeitamente controladas, dizem que já passaram por momentos de vida mais difíceis sem que nada lhes acontecesse, enfim, são pessoas que até então subestimavam quem sofria de problemas psíquicos.

O mais importante e mais difícil problema a ser resolvido em relação ao tratamento da Síndrome do Pânico é, exatamente, convencer o paciente de que seu problema é emocional e que tem tratamento.


PACIENTES COM SINTOMAS ANSIOSOS
Os quadros ansiosos associados à Síndrome do Pânico podem ser:
1. - Ansiedade Simples e Generalizada
2. - Quadros Fóbicos
2.1 - Fobia Social
2.2 - Fobia Simples
2.3 - Agorafobia
3. - Quadros Obsessivos-Compulsivos
PACIENTES COM SINTOMAS SOMÁTICOS
Os quadros somáticos associados à Síndrome do Pânico podem ser:
1 - Dor Psicogênica
2 - Hipocondria
3 - Somatizações (Transtorno Somatomorfo)

Antes de chegar ao psiquiatra, na maioria das vezes o paciente já passou por vários especialistas, começando quase sempre pelo cardiologista, depois pelo neurologista. É extremamente difícil que ele admita ter um problema da esfera emocional e, às vezes, até desejaria que seu problema fosse físico. Isso tornaria mais fácil justificar para os outros a natureza de suas queixas e, ficaria mais fácil também, explicar para si mesmo que, de fato, ele não é um fraco, que ele não tem frescura, que o que ele sente realmente é concreto.

Mesmo depois de parcialmente convencido, o paciente continua ainda a recusar o tratamento. Agora o problema são os medicamentos. Uma parte desses pacientes reluta em usar medicamento devido ao próprio medo ocasionado pelo Pânico; têm medo dos medicamentos, dos efeitos colaterais, de tudo. Em seguida, relutam ao tratamento medicamentoso pelo estigma de quem usa psicofármacos, aqueles horríveis remédios que dopam", "que viciam", etc.

O ataque típico de Pânico tem um início súbito e aumenta rapidamente, atingindo um pico em geral em 10 minutos acompanhado por um sentimento de perigo ou catástrofe iminente e um anseio por escapar. Os 13 sintomas físicos são os seguintes:

1 - palpitações,
2 - sudorese,
3 - tremores ou abalos,
4 - sensações de falta de ar ou sufocamento,
5 - sensação de asfixia,
6 - dor ou desconforto torácico,
7 - náusea ou desconforto abdominal,
8 - tontura ou vertigem,
9 - sensação de não ser ela(e) mesma(o),
10 - medo de perder o controle ou de "enlouquecer",
11 - medo de morrer,
12 - formigamentos e
13 - calafrios ou ondas de calor.

Os sintomas acima podem se manifestar com exuberantes sintomas autossômicos, que são determinados por desequilíbrio do SNA (Sistema Nervoso Autônomo) e/ou com a coexistência de Transtornos Psicossomáticos, podendo afetar os diversos órgãos ou sistemas, conforme a Lista abaixo.

Cardiologia: Palpitações, arritmias, taquicardias, dor no peito
Gastroenterologia: Cólicas abdominais, epigastralgia, constipação e diarréia
Neurologia: Parestesias, anestesias, formigamentos, cefaléia, alterações sensoriais
Otorrino: Vertigens, tonturas, zumbidos
Clínica Geral: Falta de ar, bolo na garganta, sensação de desmaio, fraqueza dos membros, falta de apetite ou apetite demais
Ginecologia: Cólicas pélvicas, dor na relação, alterações menstruais
Ortopedia: Lombalgias, artralgias, cervicalgias, dor na nuca
Psiquiatria: Irritabilidade, alterações do sono (demais ou de menos), angústia, tristeza, medo, insegurança, tendência a ficar em casa, pensamentos ruins


Alguns desses sintomas estão presentes na crise de Pânico, outros na crise de Fobia (principalmente Fobia Social), outros na Dor Psicogênica ou nos Transtornos Somatomorfos. Vejamos uma lista com a maioria dos transtornos psicossomáticos (com componente físico), possivelmente associados ao Pânico.

Como se vê, trata-se da mesma lista mostrada no tratamento das depressões atípicas. Isso porque a Depressão Atípica e a Síndrome do Pânico são, praticamente, da mesma família psicopatológica.

Havendo necessidade do tratamento médico, este deve ser duplamente direcionado: à Depressão e à Ansiedade. A maioria dos clínicos gerais e especialistas não psiquiatras têm optado, por várias razões, aos ansiolíticos como primeira opção medicamentosa.

Entre as razões dessa escolha estão, principalmente, o hábito e o desconhecimento do manuseio com antidepressivos, juntamente com o fato dos ansiolíticos proporcionarem um efeito imediato, cortando a crise imediatamente. Entretanto, sabendo que a Depressão pode estar sendo a base psicofisiológica dos sintomas de pânico e ansiosos, o mais correto seria iniciarmos o tratamento com antidepressivos, normalmente associados aos ansiolíticos na fase inicial do tratamento.

A existência de sintomas físicos em pacientes emocionais exige sempre uma adequada avaliação clínica. Não havendo confirmação clínica e laboratorial de que as queixas físicas representam, de fato, algum transtorno orgânico, estaremos diante de um quadro chamado Somatiforme. Caso hajam alterações clinicamente constatadas, como por exemplo uma hipertensão, taquicardia, úlcera digestiva, etc, estaremos diante do Transtornos Psicossomáticos associados à Síndrome do Pânico (veja como as emoções podem causar transtornos orgânicos verdadeiros).

O médico deve sempre orientar o paciente acerca de dois fatos extremamente importantes; primeiro, que a Síndrome do Pânico tem cura e, em segundo, que o tratamento é longo. Apesar dos sintomas desaparecerem paulatinamente após o primeiro mês de tratamento, a medicação deve ser continuada por um período longo, sob o risco dos sintomas reaparecerem caso o tratamento seja interrompido.

Vejamos um esquema de orientação para se estimar um tratamento mais breve ou mais longo para a Síndrome do Pânico.


SUGEREM TRATAMENTO MAIS LONGO
SUGEREM TRATAMENTO MAIS BREVE

Personalidade pré-mórbida com traços francamente ansiosos
Sem antecedentes pessoais de ansiedade

História familiar de problemas emocionais
Sem história familiar de problemas emocionais

Abuso de álcool ou drogas para aliviar os sintomas
Presença de importante estressor emocional relacionado ao início da doença

Morar sozinho
Casado(a) ou equivalente

Início em idade avançada
Início em idade mais jovem

Personalidade pré-mórbida com traços de alto nível de preocupação e conseqüência
Personalidade pré-mórbida com traços normais de preocupação e conseqüência

Ausência de consciência de eventual conflito emocional associado à doença
Consciência plena do eventual conflito emocional associado à doença




Linhas Gerais do Tratamento
É muito importante ter em mente que o paciente deve ser sempre muito bem orientado sobre os passos, o tipo e a natureza do tratamento a que está sendo submetido. O paciente deve saber sobre a natureza dos medicamentos, suas ações e efeitos adversos, sobre o tempo previsto para sua ação terapêutica, bem como a previsão de tempo de uso.

É sempre importante o paciente saber que os sintomas ansiosos e físicos desaparecerão com o tratamento. A base do tratamento será sempre com antidepressivos, com ou sem o auxílio de ansiolíticos. Primeiro porque alguns antidepressivo já têm um excelente efeito ansiolítico, em segundo porque nem sempre a freqüência das crises de pânico exigem o uso de ansiolíticos.

Havendo necessidade dos ansiolíticos para alívio mais rápido de sintomas físicos e ansiosos, os quais normalmente se constituem na principal queixa que motiva a consulta, devemos considerar a brevidade em que serão usados. O medicamento de uso mais prolongado e continuado será sempre o antidepressivo.

Atualmente existem, praticamente, três classes de medicamentos disponíveis para o tratamento de Transtorno do Pânico: antidepressivos, ansiolíticos e betabloqueadores. O tratamento não-medicamentoso também tem sido de inestimável valor, como por exemplo a terapia cognitiva e comportamental.. Precisam ser considerados os riscos e benefícios, os custos e a eficácia de cada uma dessas classes.

Para referir:
Ballone GJ - Tratamento da Síndrome do Pânico, in. PsiqWeb, internet, disponível em www.psiqweb.med.br, revisto em 2005





domingo, 3 de julho de 2011

O amor e o casamento

Flávio Gikovate - Editado pela Siciliano Veja a lista completa de textos em co-autoria

Esse artigo é resumo de uma palestra proferida em 1990 e publicada no livro Vida a Dois. Meu objetivo aqui é tratar de um tema básico: as questões do amor e do casamento.

Desde 1975, no meu livro Dificuldades do Amor, venho apontando, junto a vários outros autores americanos, a clara relação que existe entre certos tipos de encantamento amoroso – em particular a paixão – e os vícios, ou as dependências psíquicas em geral. Na verdade, o amor e o vício são muito parecidos, porque ambos determinam o mesmo tipo de busca desesperada do objeto – e nesse sentido enquadra-se também o vício do cigarro, cujo tema é profundamente tratado no meu livro Cigarro: Um Adeus Possível. Além deste, há mais dois outros, também de minha autoria, que abordam a temática do vício: Vício dos Vícios e Deixar de Ser Gordo.
Falar sobre esse assunto não foge muito ao que desejo abordar aqui, mais persistente e obsessivo, que é o do amor. Versar sobre as questões do amor e do casamento, homem e mulher significa falar da necessidade absoluta de separar sexualidade de amor como dois impulsos essencialmente antagônicos. É uma visão heterodoxa: o próprio Freud o considerava como uma expressão sublimada da sexualidade e, portanto, colocava os dois impulsos na mesma categoria, gerando um enorme volume de equívocos que a maioria dos profissionais de psicologia continua cometendo até hoje. Tal volume leva a um amontoado de complicações no plano teórico, determinando, provavelmente, subprodutos graves – como em um problema de matemática em que se erra em uma conta: a dificuldade vai aumentando e se agravando ao passar às etapas seguintes.

Para mim, o amor é um impulso que surge desde o momento do nascimento e busca devolver à criança a paz sentida durante o período uterino; ou seja, o amor como busca de harmonia através da aproximação física e, talvez mais tarde, espiritual com outro ser humano, ou como fenômeno obrigatoriamente interpessoal que busca a paz. Convém lembrar que o nosso primeiro objeto de amor é a mãe.
As manifestações da sexualidade surgem pela primeira vez no fim do primeiro ano de vida e fazem parte do processo de individuação, isto é, quando a criança começa a se reconhecer como criatura independente da mãe e inicia a pesquisa do próprio corpo. E é quando ela realmente descobre que ao tocar certas partes provoca-lhe uma sensação muito especial: um tipo de excitação física percebida como agradável. É a excitação sexual – fenômeno de desequilíbrio, ao contrário do que acontece com o amor, que é um fenômeno homeostático e a sexualidade é um desequilíbrio homeostático. Amor é paz, aconchego e sexo é excitação, ação, movimento.
É talvez por essa razão que Freud tenha tão insistentemente falado na idéia de sexo como impulso vital por excelência. Na realidade, para mim e do ponto de vista mais teórico, o instinto do amor ou o amor como instinto substitui, na concepção psicanalítica, o conceito de instinto de morte. Freud reconhecia a existência da dupla tendência no ser humano: uma para a ação e outra para a inércia, ou para a paz e para a ausência de tensão; só que ele considera isso como uma busca da morte. E acho mais razoável imaginar que o ser humano, ao buscar algo, procure reencontrar o que já vivenciou ao invés de buscar encontrar o que desconhece.

Do ponto de vista técnico ou científico, não podemos considerar a morte um fenômeno conhecido. É possível que algumas pessoas pressintam acerca do que acontece na hora da morte; mas não nos baseemos nisso. Aliás, para o próprio Freud, como ateu, foi difícil imaginar coisas sobre a morte, até porque, um ateu não pode ter nenhuma idéia do que ela realmente seja, a não ser a suposição de que, pela falta de oxigenação das células cerebrais, o indivíduo pare apenas de sentir. Mas não sabemos se isso é obrigatoriamente paz ou não; é apenas uma conjetura e não podemos conjeturar, temos de ter coisas um pouco mais sólidas. Podemos fazer conjeturas em psicologia, mas elas têm de um dia se transformar em experimentos que possam ser confirmados ou infirmados. Um dos grandes problemas contemporâneos e, principalmente, da psicanálise é esse: colecionar um enorme volume de hipóteses que não podem ser questionadas nem afirmativa e nem negativamente. Quer dizer, ficam como autos-de-fé: quem acredita, acredita, quem não acredita, acreditasse!

Então, essa separação entre sexo e amor parece-me absolutamente fundamental, sobretudo porque o amor, além de ser um fenômeno interpessoal, é uma busca permanente do ser humano em todas as outras fases da vida, completamente diferente, em essência, da busca sexual. É evidente que a partir da puberdade, quando ambos se misturam, isso pode virar uma série de confusões, já que as buscas amorosas e depois eróticas tentam encontrar um caminho comum; e isso nem sempre é tão automático ou fácil; volto a dizer: o amor é obrigatoriamente um fenômeno interpessoal, não existindo, portanto, por si mesmo; ele só existe por um objeto externo; e é paz, é homeostase.

O sexo – na sua origem pelo menos – é um fenômeno essencialmente pessoal, ou seja, a criança descobre a sexualidade tocando em si mesma. A idéia de que a sexualidade infantil é basicamente auto-erótica aparece de forma clara na obra de Freud. Na minha opinião, ela persiste como tal pela vida afora, apesar de surgirem elementos interpessoais a partir da puberdade; mas é basicamente um fenômeno pessoal, é excitação e não harmonia, é o oposto do amor. Isso, certamente, poderá ser o responsável por alguns dos ingredientes mais fundamentais das dificuldades posteriores de todo o ser humano.

Se vocês quiserem colocar isso em um outro tipo de linguagem e adotar, por exemplo, a maneira de pensar de um filósofo importante desse século – chamado Arthur Koestler –, poderíamos falar mais sobre a dupla tendência do ser humano: uma para a integração (em um livro de sua autoria intitulado Jano, que é um deus antigo de duas faces) –, ou seja, a tendência para se sentir parte de um todo maior, que corresponderia à manifestação do que estou chamando de instinto do amor – e uma outra para a individuação e a individualidade; o indivíduo quer ser parte de um todo e ser unidade em si mesmo. Esta tendência corresponderia, basicamente, à manifestação sexual, que na sua versão adulta se acresce de um ingrediente importantíssimo que eu venho chamando de vaidade (um fenômeno auto-erótico ligado ao prazer de se exibir).

Dessa forma, essa dupla tendência corresponde à dualidade básica de todos nós; e obviamente, as boas soluções para a vida são aquelas que encontram soluções de harmonia entre a dupla tendência assim oposta, o que, evidentemente, não é fácil! Isso explica por que nesses últimos dez mil anos de história os resultados obtidos para solucionar a questão do homem não são tão brilhantes. Se assim o fosse, certamente já teríamos soluções mais bem-sucedidas e harmoniosas há muito tempo. Nós estamos tentando resolver um quebra-cabeça muito complicado, que é encontrar uma solução que satisfaça todas as partes do psiquismo humano.

Falar de casamento também significa ter de separar casamento de amor. Pode parecer ingenuidade de minha parte falar isso, mas na cabeça das pessoas, notadamente na dos jovens, amor e casamento não se separam. E mesmo nas cabeças mais adultas, o amor intenso pede casamento, o que ainda é entendido como um compromisso sólido, estável e de coabitação entre duas pessoas.
De fato, amor e casamento também têm de ser claramente separados em duas categorias: o amor é uma emoção e o casamento é uma instituição – derivada do amor há muito pouco tempo e, aliás, não com resultados brilhantes. Nos tempos em que o casamento derivava de outras causas que não o amor (arranjos racionais entre famílias), parecia ter um número maior de bons resultados; isto, sem dúvida, requer a necessidade de revermos os termos do que acontece quando adolescentes e adultos jovens se encantam emocionalmente. E aí entramos em um outro problema fundamental: o encantamento. O que faz com que uma determinada pessoa, em um dado momento neutra para mim, se transforme repentinamente em um ser especial, único, sem o qual não posso mais viver? O que provoca essa mágica? Esta pessoa seguramente será uma figura que substituirá a materna; mas, na minha opinião, ao mesmo tempo nada tem a ver com a mãe. Será que sempre escolhemos as pessoas ou os objetos amorosos adultos de acordo com algum problema que tivemos com ela?

Ao se falar, por exemplo, que um homem escolhe a mulher conforme a imagem e semelhança da mãe quando teve uma boa relação com ela, não se está esclarecendo nada: ele escolhe a mulher parecida com a mãe ou o oposto dela porque todas as mulheres do mundo são parecidas ou opostas a ela. Será que sempre escolhemos os objetos amorosos adultos de acordo com algum problema que tivemos com ela? Ao se falar, por exemplo, que um homem escolhe a mulher conforme a imagem e semelhança da mãe quando teve uma boa relação com ela, não se está esclarecendo nada: ele escolhe a mulher parecida com a mãe ou o oposto dela, porque todas as mulheres do mundo são parecidas ou opostas à sua mãe.

Esse tipo de explicação não leva a lugar algum; então é muito perigosa essa relação entre os eventos infantis e as coisas adultas; aliás, tenho um certo pavor a esse tipo de raciocínio – tão ao gosto de muitos profissionais de psicologia – que nos leva a imaginar que o adulto se transforme dessa ou daquela maneira por causa de certo trauma. Tantas pessoas transformaram-se do mesmo modo e não tiveram o mesmo trauma. É preciso um espírito um pouco mais rigoroso e científico. O fato de a explicação ser lógica e bonita não garante a sua veracidade. Para tal, precisamos usar critérios um pouco mais apurados.

Não quero ser exageradamente behaviorista (a minha especialidade é basicamente psicanalítica), mas tenho formação médica e, nesse sentido, muito rigorosa: acho que conceitos têm de ser comprovados e não simplesmente ser bonitos. Em psicologia, as pessoas fascinam-se mais com a estética do que com a verdade. O fato de o conceito ser bonito, lógico e harmonioso parece agradar mais do que se fosse verdadeiro. A busca da verdade parece ser um caminho muito pouco percorrido nesses últimos tempos. Indubitavelmente, é preciso buscá-la. Caso contrário, chegaremos a um amontoado de conceitos pouco úteis, o que resulta, até mesmo, em um certo desprestígio profissional perante algumas pessoas e notadamente na área médica, dada a visão pouco objetiva e de maus resultados na prática.
Sobre o amor adulto, penso como Platão, que, aliás, é um dos autores mais fascinantes a tratar essa questão (trabalhou esse tema em alguns de seus diálogos mais lindos, O Banquete, Fedro e um diálogo sobre a amizade, que se chama Menon); para ele, na vida adulta, o amor deriva da admiração. Portanto, o encantamento se dá porque o indivíduo admira no outro algo muito especial, que, evidentemente, vai depender dos seus próprios critérios de admiração, os quais são variáveis dependendo da época e também em função da própria auto-estima. Apenas para vocês terem uma idéia do que estou querendo dizer: quando o indivíduo tem de si um juízo negativo, a tendência para o encantamento pelo oposto é quase inevitável. Este acaba por determinar um tipo de encantamento que talvez seja muito interessante em certos aspectos; mas do ponto de vista prático, ou seja, daquilo que o casamento tem de concreto, vai implicar relações catastróficas – pelo menos atualmente.

Hoje em dia, existem algumas diferenças em relação ao que era no passado, onde o homem "dava as cartas" dentro da relação conjugal; as mulheres obedeciam e pronto! Na atualidade, os dois pensam. E assim sendo, é evidente que afinidades intelectuais, de pontos de vista, projetos de vida e objetivos transformam-se em coisas fundamentais, porque garantem a harmonia. Diferenças acabam por determinar brigas, tensões e contradições de todo o tipo – tanto que hoje é difícil imaginar que o casamento possa existir e funcionar bem, a não ser quando baseado em afinidades.
Isso não foi sempre assim, e o próprio Freud defendia a idéia de que as boas ligações afetivas eram entre opostos. Em Introdução ao Narcisismo, ele afirma isso e acha até que se ligar a pessoas afins é uma expressão narcisista, o que quer dizer que a pessoa tem amor por si própria e só consegue amar alguém parecido consigo mesma. Na realidade, não vejo assim. O indivíduo que estiver satisfeito com o seu jeito de ser tende a achar graça em pessoas semelhantes a ele, sem isso significar narcisismo ou ausência da capacidade de amar a terceiros, mostrando claramente boa aceitação em relação à sua pessoa. Se gosto de conviver com alguém meigo, calmo, educado, não-agressivo e generoso, não há razão para chamar isso de narcisismo, a não ser como o jogo de palavras que, a partir de um certo ponto de sua obra, visava a busca da coerência com a teoria (o que, na minha opinião, era um dos grandes problemas de Freud). Quer dizer, ele já estabelecera o conceito de narcisismo, que significava amor por si mesmo – o que, aliás, também não é o meu ponto de vista.

Para mim, os narcisistas, com esse temperamento mais egoísta que lhes é peculiar, são pessoas que na verdade se odeiam, têm de si um péssimo juízo. Sabem que são um blefe! Uma mentira! Então, também não há amor por si mesmo no narcisismo: ele é um jogo de faz-de-conta, onde as pessoas agem como se fossem extraordinárias, sabendo que não o são. E não querem que ninguém saiba a verdade. O encantamento por opostos parece-me basicamente um sinal de baixa aceitação de si mesmo. Há uma outra razão que leva as pessoas ao encantamento pelo oposto, que tratarei mais adiante.De qualquer modo, o amor deriva da admiração e pode se dar entre todos os tipos de pessoas. Posso encantar-me com quem nada tem a ver comigo. Agora, com relação ao casamento, se tal encantamento se der apenas porque a amo e as diferenças existirem como um fato marcante, provavelmente irão minar e destruirão a relação afetiva e o próprio casamento em pouquíssimo tempo.

Há estudos interessantes feitos nos Estados Unidos. Americanos são o oposto dos psicanalistas: eles medem e pesquisam tudo, tornando-se objetivos até demais em certos aspectos. Estudaram pessoas, por exemplo, que se casaram menos apaixonadas mas segundo critérios racionais de afinidade, ou seja, um casamento racional – mais ao gosto de nossos avós. O sentimento era menor em uma primeira fase, mas, no final de cinco anos de vida em comum, as relações afetiva, conjugal e amorosa cresceram. Pessoas com um bom relacionamento apegam-se umas às outras. Por que não haveria um avanço do aconchego e da boa qualidade afetiva com o passar do tempo? Ao contrário, as que se casam apaixonadas, mas ricas em diferenças fundamentais – de caráter, estrutura, projeto de vida – cinco anos depois, aproximadamente, divorciam-se.

Portanto, não basta que elas se amem para que o casamento perdure. Casamento é um assunto diferente de amor; ele também exige afinidades práticas por ser uma sociedade civil, uma instituição para fins práticos. E se não for respeitado esse lado prático, lógico e objetivo, as coisas não evoluirão favoravelmente, o que significa acabarmos efetivamente com a idéia de que o amor tem de estar em oposição à razão. Ambos têm de andar juntos para que o casamento não aborte. Aliás, é preciso olhar com objetividade para os fatos outra vez. Aproximadamente 90% dos casamentos são fracassados em menos de sete anos. Com relação ao número de divórcios, possivelmente ele seja menor.

Portanto, é preciso saber que o casamento é uma empreitada de alto risco e, portanto, torna-se necessário que a razão dela participe. Aliás, o desprezo pelo lado racional do ser humano é a outra face da modernidade psicológica, em que o importante é sentir e não mais pensar. É querer que o humano seja subumano. Não aprovo o oposto: as pessoas querem que o humano seja sobre-humano, pronto para a caridade, a renúncia, o sacrifício integral. Mas também não gosto do desprezo pela razão, que faz o homem parente próximo demais do macaco. Existe um lugar nessa escala para nós. Não somos macacos e nem santos. Há um ponto intermediário no qual podemos ficar e com a razão absolutamente em ação e funcionamento.

Então, eu gostaria de me dedicar agora à análise do que penso serem os maiores obstáculos à felicidade sentimental e, portanto, conjugal. Já ficou claro o que eu queria passar, que é a noção bastante evidente de separação entre sexo e amor e entre amor e casamento: o amor é um encantamento e o casamento é uma sociedade – o encantamento é apenas um dos critérios que pode definir a sociedade.
No passado, o critério era apenas racional. Nesses últimos anos, ele tem sido puramente sentimental e a minha proposta é que seja misto – para quem deseja se casar. E não há antagonismo nisso. Posso perfeitamente me encantar por uma pessoa que seja também razoável dos pontos de vista lógico e prático, viável para a vida em comum, ou seja, com maior maturidade, já que eu me encanto por pessoas mais parecidas comigo, o que significa desenvolvimento pessoal. Enquanto eu não estiver feliz como sou, de nada adianta dizer: me amo ou devo me amar. Só me contentarei com a minha maneira de ser ao conseguir ser próximo do que considero ideal. Ninguém sentir-se-á intimamente feliz caso não se pareça com aquilo que valoriza nos seres humanos. Não há chance de se enganar. Pode até tentar iludir os outros, como fazem os narcisistas, porém, conhecem a verdade e jamais poderão se aceitar como são. Por isso o trabalho é longo e penoso; o indivíduo precisa evoluir para realmente aceitar as suas limitações, conhecer-se e trabalhar seriamente no seu processo de crescimento se quiser elevar a auto-estima. E aí a tendência será para se encantar com pessoas parecidas e também para que esse encantamento seja compatível com as necessidades práticas da relação conjugal.

Uma das maiores dificuldades para uma boa vida conjugal tem a ver com a inveja, que é um sentimento muito pouco estudado. Na verdade, quem mais estudou a emoção em nosso meio foram os umbandistas, pais-de-santo e outras pessoas ligadas a esse tipo de religião, onde o tema fundamental foi sempre a inveja. Os profissionais de psicologia não gostam de temas como inveja e vaidade, a não ser que sejam vistos de passagem; ou usam os termos como se fossem claros e conhecidos em suas nuanças por todas as pessoas. Essa não é a minha posição. Para mim, a inveja é um elemento importantíssimo que deriva também da admiração, como o amor. Ninguém vai invejar alguém que não seja rico em qualidades, mas sim por admiração, do mesmo modo que amamos porque admiramos. Só que a sensação de inveja é de humilhação: o indivíduo sente-se inferiorizado ao se comparar com as qualidades da outra pessoa, ferido na sua vaidade e, por isso mesmo, com tendência a desenvolver uma reação de raiva, agressividade, revolta contra aquele que lhe provoca a inveja.
Então, quanto maiores as diferenças entre as pessoas que se unem, maior o ingrediente de inveja, que competirá com o amor. Portanto, a inveja estará presente na relação com força igual ou maior que o amor; na verdade, maior que o amor nas relações entre opostos, definindo esta posição que todos conhecem: as pessoas ficam juntas, brigam muito, mas não se separam, porque se admiram e se odeiam ao mesmo tempo por não possuírem os valores que tanto admiram uma na outra. O outro é tão rico no que não se tem ... Por exemplo: se para uma pessoa tímida, que se casa com outra extrovertida, ser tímida lhe é penoso, a sua tendência é ter uma intensa inveja desta criatura. E todo tímido acha isso, porque, na psicologia americana dos últimos quarenta anos, a extroversão passou a ser qualidade, embora não fosse essa a opinião de Schopenhauer; para ele, o extrovertido é o indivíduo que não agüenta o tédio de ficar consigo mesmo.

A tendência da inveja é agressiva, é sabotagem, é tentar derrubar o outro, é fazer mal ao outro. E essa relação define aquilo que podemos chamar de "inimigos íntimos", que são a grande maioria das relações conjugais onde há briga, tensão, ações para sabotar, minar e destruir, às vezes a pretexto de ciúme, o qual é usado até para encobrir a inveja. Mas é importante lembrar que nem tudo é ciúme. Muito daquilo que se diz ser ciúme é inveja. Por exemplo: não querer que o outro vá aqui ou ali não é só por medo de ele fazer isso ou aquilo, mas porque só o fato de ele fazê-lo já é suficiente para me deixar aborrecido, pois estará fazendo aquilo que eu gostaria de fazer.

É preciso registrar, ainda, que existe um outro fator que ativa muito a questão da inveja: a imaturidade; quer dizer, o tipo humano mais narcisista, cujo perfil se define fundamentalmente como o tipo extrovertido, egoísta, agressivo, intolerante a frustrações, a arbitrariedades e invejoso, porque tem de si uma péssima avaliação. A maior prova de que ele não se ama é a enorme inveja que sente; são muito mais ferinos, maldosos e profundamente invejosos porque sabem que são um blefe! Nas relações entre opostos, quase sempre um é mais egoísta, mais narcisista, enquanto que o outro é mais generoso, "panos quentes", tolerante a contrariedade e, ao mesmo tempo, mais tímido, mais quieto e que também tem de si – principalmente no período da adolescência – um juízo muito negativo. Porém, o mais generoso tem uma inveja menos ferina, menos malvada, menos destrutiva; talvez sofra mais, mas é menos maldoso no sentido de agir para derrubar o outro. Então, um dos ingredientes que torna a inveja mais terrível é a imaturidade emocional do narcisista.

Desde 1980, em meu livro Em Busca da Felicidade, faço severas restrições à generosidade. Mas ela é, sem dúvida, um passo adiante em relação ao egoísmo, que é uma coisa meio subumana. É o homem sem razão, sem lógica, querendo só cuidar do que é seu, exatamente como qualquer animal. E o generoso é meio sobre-humano. Ele "passa do ponto", fica mais para santo do que para humano; certamente, um reforça o outro, formando uma associação que chamo de "amor entre opostos", amor por diferenças e que Erich Fromm, em A Arte de Amar, denomina de "relação sadomasoquista", sendo que o generoso é o masoquista e o egoísta é o sádico. Não aprecio esses termos por causa da conotação sexual que está implícita neles, até porque, para mim, a questão não é sexual.

Existe um outro elemento ainda que considero muito importante: a inveja entre os sexos. Freud já falava, em parte, sobre a inveja que algumas mulheres costumam ter dos homens por causa do pênis. Desenvolvi mais extensivamente o tema da inveja masculina no meu livro Homem: Sexo Frágil?, que, a meu ver, é muito maior que a feminina. A grande maioria dos homens inveja as mulheres. E isso principalmente porque durante o período da adolescência eles as desejam muito mais do que se sentem desejados. Por volta dos 14 anos, eles se apaixonam pelas meninas e elas praticamente os ignoram, provocando-lhes uma sensação de inferioridade, rejeição, humilhação, que parece não desaparecer jamais. Fica uma espécie de espinho engasgado na garganta e que, na minha opinião, está na origem de todo o machismo; esse prazer masculino de derrubar, agredir, depreciar, insultar as mulheres é, seguramente, dor-de-cotovelo, a qual deriva dessa sensação de inferioridade sexual.
Portanto, há diferenças entre o feminino e o masculino basicamente ligadas à importância da visão como desencadeadora do desejo sexual. Isso na adolescência se transforma em algo que os homens sentem como grande inferioridade. Esta também foi a visão de Freud, cuja observação consta em uma pequena nota de rodapé em um de seus melhores trabalhos intitulado O Mal-Estar na Civilização, onde deixou um germenzinho disso ao dizer que o que aconteceu com o homem foi a passagem, por força da evolução "genética", da importância do olfato para a da visão. A partir desse livro comecei a desenvolver esse aspecto até o limite de sua importância fundamental por não ser um fato qualquer; a passagem para a visão determina a posição ativa masculina, o que incomodou muito as feministas nos anos 70, nos Estados Unidos, e no início dos anos 80 aqui no Brasil; a palavra "ativa" é registrada pelos homens não como algo que implica superioridade, mas sim inferioridade, porque ser ativo não é uma vantagem: aproximar-se de uma mulher e poder ouvir um "não" é uma sensação de risco que não agrada a ninguém.
A inferioridade sexual masculina logicamente também está presente na "hora agá". O homem pode fracassar e o seu fracasso é ostensivo, é público; toda a cultura machista, curiosamente, louvou as vantagens do homem até para neutralizar essa inferioridade; isto atrapalhou ainda mais, porque depois ele não conseguiu corresponder a essa superioridade masculina que a cultura tanto louvou! Sabem por quê? Porque ela é falsa! O machismo oprime, antes de tudo, o próprio homem. Então, na "hora agá" pode não haver ereção. E como é que fica o homem diante dessa possibilidade o tempo todo? Sentindo-se cada vez mais inferior. Aliás, quanto mais se louvar uma superioridade que não existe, mais inferior ele vai se sentir – e obviamente com raiva; mas não é uma raiva que se origina do nada: é raiva do homem que queria ser mulher. Há aqueles que sabem disso e aceitam essa verdade mais docilmente – talvez sejam invejosos menos perigosos. Os homossexuais muitas vezes ostentam essa postura e no limite disso estão os travestis. Não há muitos casos do contrário, ou seja, há muito mais homens querendo ser mulher do que vice-versa (o carnaval é prova disso). Então, são fatos e não hipóteses. A inveja feminina é menor e não é universal.

Muitas moças, quando crianças, quiseram ser homem pelas vantagens sociais que esse fato implica: o menino pode brincar na rua, fazer xixi de pé no banheiro, na estrada, no carro, etc. Enfim, pequenas vantagens técnicas. Ao chegarem por volta dos 14 anos – especialmente quando começam crescer os peitinhos, se tornam mais bonitinhas e os meninos começam a mexer com elas – se esquecem rapidamente de que queriam ser homem. Agora, o que desejam é provocar os homens e tê-los nas suas mãos. Pode ser ainda que reste uma pequena irritação contra os homens, vestígios do tempo da infância, que, em certas mulheres, se transforma em um desejo de dominação às vezes mais maldoso, causador de dificuldades sexuais nessas pessoas. A não-aceitação da condição feminina é coisa importante, mas não é esse o tema aqui.

Há, ainda, um outro fator ligado a essa escolha entre opostos, comum nos primeiros anos da mocidade: é o elemento erótico, que muito freqüentemente puxa para um encantamento entre opostos. Especialmente na psicologia masculina, a sexualidade acaba se relacionando à raiva, à agressividade, mais do que ao amor. Uma das coisas mais tristes da psicologia masculina – e uma das mais difíceis da relação homem/mulher – é o fato de que o desejo sexual masculino é muito maior quando existe um certo ingrediente de raiva e não um grande amor.

No entanto, no grande encantamento amoroso e sobretudo na paixão, a tendência é para total inibição sexual masculina – pelo menos durante um certo tempo. Isso deu origem, por exemplo, ao amor romântico nos séculos XVIII e XIX, quando todos os poetas louvaram o amor verdadeiro como sendo platônico, ou seja, assexuado, e quando o encantamento amoroso era de tal importância que o sexual passou a ser rebaixado. Talvez a ternura crescia a ponto de bloquear o tesão. Mas, no meu entender, o fenômeno é mais complicado do que isso. A ternura, quando cresce, corre pelo mesmo caminho, obstruindo o tesão que se ativa mais pela raiva e pela agressividade; toda a cultura masculina é nesse sentido.

Diga-se a propósito que os próprios palavrões, que são terminologia basicamente masculina, são o reflexo claro disso: eles definem essa associação entre sexualidade e agressividade. São termos de conotação claramente sexuais usados com o intuito agressivo, definindo essa relação entre sexualidade e agressividade, presente na maior parte dos homens, e que sem dúvida pode levar um homem a se encantar por uma mulher que lhe provoca raiva e, conseqüentemente, tesão e não amor. E a mulher que provoca raiva em geral é o oposto dele, o que o irrita muito; pessoas que agem e pensam de maneira totalmente diversa da nossa acabam provocando raiva, e essa raiva pode provocar o tesão. E se o elemento erótico for muito importante na escolha, mais do que o elemento racional e de admiração que define o amor, pode perfeitamente ser mais um fator que levará a uma escolha inadequada, que é evidentemente o maior problema das relações conjugais.

Há, ainda, muitos outros problemas na relação conjugal, mas na impossibilidade de abordar todos aqui, me aterei apenas a mais dois. Um deles é o medo do amor – tema curioso que comecei a desenvolver em 1978 no meu livro O Instinto do Amor e que nunca havia sido abordado anteriormente. Todas as grandes histórias de amor, especialmente as paixões, não tiveram continuidade e nem deram certo, aparentemente, em virtude de obstáculos externos. Em Romeu e Julieta, o impedimento residia nas famílias. Na prática, os obstáculos externos são muito freqüentes: as pessoas são casadas, têm filhos pequenos, há dificuldades para a separação problemas materiais ligados a ela, etc.

A minha experiência tem mostrado de modo claro que estes obstáculos externos à plena realização amorosa não são o verdadeiro problema. Divórcios tornaram-se possíveis. Ninguém mais se atém aos impedimentos familiares, nem à opinião dos pais; os filhos já não são problemas intransponíveis e metade das crianças já são filhos de pais separados; apesar disso, as pessoas continuam fugindo do amor desesperadamente. O obstáculo é interno; caso fosse externo, seria ótimo, porque se atribuiriam a ele as dificuldades, como se o problema fosse o impedimento de ordem social. E não é verdade! Ele é absolutamente interno! Esse medo de amor provavelmente tem a ver com a perda da individualidade. Se voltarmos àquela idéia inicial de que existem no homem duas tendências – uma para a integração e outra para a individuação –, quanto mais forte e entrosado o amor e quanto mais afins as pessoas forem, mais a tendência para dar certo existe, maior será a possibilidade de esse elemento de integração ser satisfeito e, talvez, para o elemento de individuação se sentir ameaçado, abalado. Diante disso, começamos a nos "travar" por medo de nos diluirmos, de nos fundirmos na outra pessoa.

Há em nós essa vontade de diluição e, ao mesmo tempo, pavor dela. Além do mais, nas histórias de amor – e eu acompanho centenas delas por ano – vemos essa dupla tendência: fascínio e medo presentes o tempo todo. Os indivíduos fascinam-se pelas histórias amorosas e entram em pânico diante delas.

É evidente que o amor, quando entre pessoas muito afins, é uma emoção muito forte. Dá uma sensação de simbiose, de diluição, onde um vai se perder no outro e isso pode ameaçar muito a individualidade. Muitas vezes são buscadas soluções intermediárias. Uma delas é a busca de pessoas opostas, com quantidade de defeitos suficientes para que a simbiose não se dê profundamente. Do mesmo modo que as qualidades fascinam e determinam a integração, os defeitos repelem. Então, uma cota certinha de qualidade e defeitos define uma coisa intermediária, um meio-termo ao qual o indivíduo se sente ligado, mas não a ponto de ameaçar a sua individualidade.

Uma outra solução é amar desesperadamente alguém que não nos ame muito. Neste caso, tendemos a nos fundir no outro, mas este não nos dá muita atenção, nos humilha, nos deixa meio sós ... E agüentamos, porque isso nos dá certo equilíbrio. Estamos sempre correndo atrás da pessoa e ela não nos dá muita atenção. Isso também resolve o compromisso entre simbiose, integração e individuação.
Uma outra hipótese é nos encantarmos por uma pessoa bastante diferente de nós; além dos "defeitos", ela possui uma outra freqüência de ondas, pensa e sente de outro modo, manifesta-se diferentemente. Logo, não temos o problema da fusão, nos livramos de algo que nos apavora, ameaça a individualidade e determina o surgimento fortíssimo do que venho chamando, desde 1980, de "medo da felicidade".

Nada provoca nas pessoas maior sensação de felicidade do que o encaixe amoroso. Por outro lado, nada provoca no ser humano maior pavor do que a felicidade. E ao se aproximar o encaixe amoroso, as pessoas sujeitam-se a qualquer negócio para se afastar, porque a sensação de felicidade, plenitude, completude e harmonia é tamanha que o indivíduo passa a ter certeza de que, no mínimo, um raio cairá sobre a sua cabeça e ele, seguramente, morrerá. E a sensação é essa mesma, é fortíssima; quem ainda não a sentiu é porque não chegou perto da felicidade; ao chegar, verão que isso é absolutamente verdadeiro, não é uma hipótese, é um fato. É um medo difuso, uma iminência de catástrofe responsável pela existência milenar dos rituais supersticiosos; e o medo da felicidade é a sua causa: pessoas batendo na madeira e fazendo "figas" quando estão muito felizes. Se não houvesse medo não existiria esse ritual de proteção da "ira dos deuses" – parece que até eles se enfurecem quando estamos muito felizes. Tememos a nossa destruição pelos invejosos. E todo o conceito de "olho gordo" também se fundamenta e vem à tona nesse medo da felicidade. Sentimos que não temos estrutura para suportar tudo o que temos e que, certamente, algo de ruim nos acontecerá. Com isso, nós mesmos malogramos nossa felicidade; antes que os deuses "nos matem", destruímos sozinhos aquilo que nos está dando tanta alegria!

Essa é a grande causa da maior parte das brigas e dificuldades entre as pessoas que se amam demais e se entendem muito bem; sempre inventam um problema para ficar na dúvida se devem ou não ficar juntas. Não havendo obstáculos externos, quando jovens e decidem se casar, um sempre acaba falando ao outro: "Não sei se estou pronto, se quero, se já é hora", etc.; começa-se a procurar "pêlo em ovo". Quando demoram mais na decisão de se casar, aumenta a chance de ser um bom casamento! Uma mau casamento pode ser decidido em três dias. Na verdade, o problema é "apenas" o medo da felicidade manifestando-se e, por vezes, bloqueando a sexualidade principalmente nos homens, o que é muito fácil, pois o homem é um animal fraco e meio assustado.

O medo da felicidade implica atraso na coragem de as pessoas se comprometerem e errarem na escolha (assim, não correrão o risco de "morrerem destruídas por um raio"). Se o ficar rico redunda em muita felicidade, é preferível ficarmos pobres, porque assim "garantiremos a nossa sobrevivência". É dessa forma que aparece psiquicamente a questão do medo da felicidade. E temos de tentar entender a sua origem; creio que está ligada ao trauma do nascimento e, portanto, é uma coisa dificílima e sem "cura". Não conheci ninguém sem esse medo.

Sem dúvida, existem pessoas com menos medo; e elas são os nossos ídolos – dotadas de uma incrível coragem em todos os níveis, até no profissional. Mas aí, ao serem bem-sucedidas nessa área, destroem o sentimental. Quero ver as pessoas felizes e também que tudo lhes dê certo, porque dar certo no sentimental e ficar pobre é fácil. Quero que o indivíduo consiga tudo o que for bom para ele sem entrar em pânico, nem ter de "negociar" com os deuses, fato este curiosíssimo; sim, porque são negociações exatamente como as salariais: "Tenho isso, então dou aquilo; abro mão daquele outro; sustento meu irmãozinho vagabundo porque assim apaziguo a minha culpa de ter as coisas que tenho". E assim todos vão negociando sempre para aplacar a "ira dos deuses".

De uma forma ou de outra, nosso cérebro registrou a fase da simbiose uterina como um período de harmonia – talvez sem contratempos – quando comparado com o que acontece depois do nascimento. O primeiro registro cerebral é a harmonia e o segundo é a sua dramática ruptura: o nascimento, que é o grande trauma, tão bem descrito por Otto Rank – na minha opinião, um dos psicanalistas mais importantes. Sempre que se chega a uma sensação de harmonia parece que se ativa a lembrança em algum lugar do cérebro que nos assusta. Agora, não é mais o nascimento, é a morte. A destruição parece que se torna iminente sempre que a situação está muito agradável.

Volto a dizer: nada provoca uma sensação de medo mais forte que a felicidade amorosa, até por ser o que mais se parece com a simbiose uterina e, portanto, com a origem do próprio fenômeno, do medo da felicidade. A sensação de paz representa o útero. Se tudo estiver bem, evidentemente a próxima sensação é a de que algo horrível acontecerá e destruirá a paz.

Todo o pensamento místico e religioso acabou por reforçar isso terrivelmente com concepções ligadas à idéia de que o prazer e a felicidade são pecados, ou, pelo menos, não são grandes virtudes; mas o sofrimento, o sacrifício e coisas desse tipo o são. Portanto, quando o indivíduo está feliz, além de ter o medo da felicidade – e, conseqüentemente, essa sensação desagradável de iminência de tragédia –, também começa a se sentir em pecado. E esta sensação parece aumentar as chances de real punição, não só pela inveja dos humanos, mas também pela "ira dos deuses".

Para mim, esse é o grande obstáculo para se atingir a felicidade e está sendo subestimado. Não há solução absoluta para isso: a consciência – saber que tais mecanismos existem e que quando está tudo bem tendemos a fazer bobagens – é fundamental. Quantas vezes não ouvimos: "Está tudo bom, mas estou com medo de que não vai durar". O que isto significa? Eu mesmo já não estou agüentando tanta felicidade e tomarei uma providência para liquidar esse bem-estar, me autodestruir.
Hoje em dia, quando tenho um pensamento desse tipo, imediatamente penso: "O que é que vou fazer por não estar suportando tanta felicidade?" Eu me interdito, quer dizer, me impeço de fazer qualquer coisa que fuja da minha rotina básica, e se o fizer será destrutivo. Estou prontinho para cometer um erro, porque estou muito bem! E isso reativa um reflexo condicionado profundo e difícil de ser desfeito totalmente.

Enfim, termino reforçando um elemento, digamos assim, mais geral e mais teórico. A verdade é que nestes 100 anos de desenvolvimento da psicologia, as questões do amor e do casamento em nada evoluíram. As pessoas continuam pensando muito mal sobre o assunto, além de desinformadas. Foram muito mais bem informadas sobre a questão sexual do que sobre a questão romântica. A desinformação grassa e um amontoado de idéias, na minha opinião, duvidosas – pelo menos não-provadas – abundam, as quais, insisto, deveriam ser banidas do nosso pensamento. Conjeturas que não podem ser confirmadas ou infirmadas são um perigo para o pensamento; deixam-nos em uma situação meio sem saída. Elas passam a ser uma questão de fé e a ciência não pode viver de questões de fé. Bons conceitos têm de levar a bons resultados, caso contrário, é porque não são bons. Quando teoria e prática não combinam, tem de valer a prática. E na nossa especialidade, muitas vezes tem valido a teoria, que é o que não nos interessa; só se ela chegar a algum resultado prático, concreto, útil e de valia.

A psicologia é uma ciência prática que deve servir para ajudar as pessoas a melhorar a sua qualidade de vida, o seu relacionamento consigo mesmo e com os demais. Idéias devem ser postas em prática; mas se elas forem falsas e falhas – o que aos poucos é o destino de todas elas –, devem ser substituídas por novas. Temos de retomar a noção de uma ciência em atividade, como aconteceu nos primeiros anos da psicanálise, e a idéia de uma ciência em processo de desenvolvimento e mudança.
Não estou defendendo aqui dramática e fanaticamente as minhas idéias. Apenas abordei algumas delas e as exponho a julgamento. Se aparecerem opiniões mais consistentes e que contradigam as que aqui foram colocadas, abandonarei imediatamente as minhas idéias e procurarei me adequar às novas, que expliquem e justifiquem melhor os novos fatos.

Para mim, esta é a essência de um modo aberto de pensar que poderá levar a bons resultados. E estamos aqui para colecionar novos dados – trabalhando, todos, em assuntos de psicologia, para que um dia ela se transforme em uma ciência a mais objetiva e útil possível.